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Ferver em pouca água

“Ferver em pouca água“ é uma ótima medida alimentar. Poupamos a água, enquanto recurso da natureza. Poupamos o tempo, enquanto recurso da vida. Poupamos o valor nutricional dos alimentos, enquanto protetores do corpo e da mente. Numa consulta de nutrição, a sustentabilidade é também tema, ainda que possa não ser o primeiro. A consulta deve ter o tempo necessário: sem ser excessivo porque pode levar à ebulição e, assim, se evaporar a motivação e a disponibilidade da pessoa; e sem ser mínimo porque a água ficará mais fria do que tépida, sem se estabelecer uma empatia que mostre à pessoa que é capaz no seu acompanhamento, seja para um processo de peso saudável ou outro.

Este ponto de equilíbrio é essencial para a nutricionista orientar aquela pessoa e, esta visualizar que é capaz e que é, por isso, a outra metade do processo. Na temperatura e no tempo, indicados. Tal e qual como quando lemos o modo de preparação, num rótulo ou numa receita. Nesta relação, deve haver um balanço entre o quanto cada parte está a contribuir. Deve haver a responsabilização ou o envolvimento, a 50%, de ambas as partes. A nutricionista não se pode imiscuir do seu empenho. O paciente não pode delegar a sua parte na nutricionista ou no “destino“. A escuta e a sensibilidade, de que falei em artigos anteriores, vêm do conhecimento de quanto a temperatura já é suficiente para o resultado que se espera naquele tempo.

Porém, numa outra leitura, sabemos que podemos precisar de “desequilibrar“ a balança e por vezes, uma das partes tem que se evidenciar mais: a nutricionista, quando precisa que o paciente mostre mais as suas capacidades; o paciente, quando tem mais autonomia; a nutricionista, quando precisa de adicionar mais medidas; o paciente, quando é mais consistente nos seus hábitos. Num exercício cujo “lume“ vai sendo ajustado. Não pode haver a vulnerabilidade de baixar ou aumentar demais, com o risco de se adiar o resultado desejado ou de precipitar um transbordo de emoções, colocando, em causa, em ambas, a adesão ao plano alimentar.

A ebulição pode ser também possível de ver noutros contextos, profissionais ou pessoais, entre pessoas e dentro de nós. É, geralmente, vista como negativa e, é crítica quando não há discernimento e regulação emocional, capacidade de contextualização e necessidade de controlo e de poder sobre o outro (ou sobre as suas crenças quando o conflito é interno). Faltam, aqui, muitos ingredientes para adicionar à água e fazer, assim, abrandar o risco de ebulição. São as ferramentas da vida que faltam. “Ninguém é tão feroz que não se possa domar/ se emprestar seu paciente ouvido à cultura da alma“ (do filósofo Horácio em “Epístolas“).

Mas, se a ebulição é um fenómeno da natureza, pode ser positiva: precipita aquilo que não merece mais que se faça demorar, já passou do seu prazo de validade; os limites tornam-se melhor definidos e há melhor mestria na nossa escolha; e evapora-se a ilusão, que é o que faz atrasar a vivência do real e do útil. Há um tempo para tudo e, o tempo é o bem mais precioso da vida. Com a consciência nisto, tudo o demais passa a ser indiferente. E, neste calor do ano, votos de umas boas férias, com um mergulho refrescante! Porque na Nutrémia falamos para além das calorias®.

Teresa Campos, Nutricionista e Diretora da Nutrémia, Clínica de Nutrição e do Comportamento

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