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Quando um idoso deixa de comer: o contributo da Psicologia numa ERPI

“Ela sempre gostou de comer, mas agora deixa metade do prato”

Numa Estrutura Residencial para Idosos (ERPI), quando um utente que habitualmente come bem, começa a deixar comida no prato, a primeira preocupação da equipa técnica é perceber o que poderá estar a acontecer do ponto de vista físico e nutricional. No entanto, também é importante tentar perceber se aconteceu alguma mudança na vida da pessoa que possa estar a influenciar a sua alimentação.

A alimentação da pessoa idosa institucionalizada é influenciada por vários fatores. Por isso, é importante que esta questão seja analisada pelos diferentes profissionais que acompanham o utente. Comer não é apenas uma necessidade fisiológica, é também um comportamento associado ao prazer, às relações interpessoais, às rotinas, às memórias, à autonomia e à identidade. Posto isto, perante um utente que passa a comer menos, é importante não assumir imediatamente que se trata de uma consequência “normal” do envelhecimento.

A diminuição da ingestão alimentar, pode estar relacionada com uma série de fatores como dor, dificuldades de mastigação e deglutição, efeitos de medicação ou outras alterações clínicas. Mas também pode surgir numa situação de luto, depressão ou dificuldades de adaptação à institucionalização. É neste contexto que o psicólogo pode ajudar a compreender outros aspetos que possam estar relacionados com esta mudança de comportamento.

Imagine-se uma utente que entra em processo de luto após morte do marido, não apresenta uma alteração física significativa que, por si só, justifique a diminuição do apetite. No entanto, deixou de participar nas atividades, passa mais tempo no quarto e começou, progressivamente, a recusar algumas refeições.

Dizer simplesmente que a utente “tem pouco apetite” não explica o que realmente poderá estar a acontecer. Nesta situação o psicólogo pode ajudar a explorar alterações de humor, perda de interesse, dificuldades de adaptação à instituição e sentimentos de perda. Pode também ser importante perceber como a pessoa vive o momento da refeição, que emoções lhe estão associadas e de que forma os outros utentes influenciam esse momento.

A observação clínica tem um papel fundamental nesta avaliação: A pessoa recusa todas as refeições ou apenas algumas? Come melhor quando está acompanhada? Alimenta-se melhor num ambiente mais tranquilo? Recusa determinados alimentos ou consistências? A alteração surgiu depois da morte do marido? Demonstra prazer quando fala de determinados pratos associados à sua história de vida? Estas perguntas ajudam a perspetivar um comportamento aparentemente simples, “come pouco”, numa hipótese clínica que pode ser compreendida e explorada.

Um dos aspetos mais relevantes em contexto de ERPI é a preservação da autonomia, à medida que aumentam as necessidades de cuidados, existe o risco de algumas decisões serem transferidas para a equipa de profissionais: quando come, o que come, onde come, quantidade e forma. Estas decisões são muitas vezes necessárias para garantir a segurança e qualidade dos cuidados dos utentes. No entanto, sempre que possível, preservar pequenas escolhas, pode ter um importante impacto psicológico. Escolher entre duas sobremesas, decidir onde se quer sentar, participar na escolha de um prato para uma ocasião especial, como o seu aniversário, manter determinados alimentos com significado pessoal ou cultural, como um copo de vinho a acompanhar a refeição, ser ouvido quando manifesta uma preferência ou rejeição de determinados alimentos, oferecendo outros em alternativa. São pequenas decisões, mas podem ajudar a pessoa a manter algum controlo sobre o seu dia a dia, sobretudo quando outras decisões passam a ser tomadas por terceiros.

Uma das vantagens de colaborar com uma ERPI é precisamente a possibilidade de diferentes profissionais acompanharem a mesma pessoa e partilharem aquilo que observam. O nutricionista pode identificar uma redução significativa da ingestão alimentar e avaliar o risco nutricional, o enfermeiro pode reconhecer alterações clínicas relacionadas com a medicação, o médico pode investigar possíveis causas orgânicas, o fisioterapeuta pode avaliar limitações funcionais que interfiram com a alimentação, o psicólogo pode explorar alterações emocionais, comportamentais e relacionais. Nenhuma destas perspetivas, isoladamente, permite compreender toda a situação, estas informações complementam-se e permitem ter uma visão mais completa da situação.

Por isso, quando existe uma alteração na alimentação, não basta pensar apenas como aumentar a quantidade de comida ingerida. É igualmente importante perceber porque é que a pessoa está a comer menos e o que pode ser feito para tornar as refeições mais agradáveis e adequadas às suas necessidades.

Na prática, esta avaliação nem sempre é linear. Por vezes, a equipa observa que a pessoa recusa a refeição principal, mas aceita uma sobremesa que lhe é familiar, ou come melhor quando está sentada junto de determinado utente. Para outra pessoa, pelo contrário, o ruído, a presença de muitas pessoas ou a necessidade de comer num determinado ritmo pode tornar esse momento desconfortável. Quando conseguimos compreender estas dimensões, a alimentação deixa de ser apenas uma tarefa de cuidados e pode transformar-se numa oportunidade de relação, escolha e participação. Perceber estas diferenças pode ajudar a equipa a adaptar os cuidados à pessoa que tem à sua frente.

O contributo da psicologia passa também por ajudar a equipa a fazer estas perguntas e a perceber que uma alteração no comportamento alimentar pode estar relacionada com aquilo que a pessoa está a viver naquele momento. No fundo, quando uma pessoa idosa passa a comer menos, importa perceber o que mudou. A resposta pode estar relacionada com a saúde física, mas também com o humor, as relações, a rotina ou a forma como a pessoa está a viver a institucionalização.

É neste sentido que a psicologia pode contribuir: ajudar a equipa a olhar não apenas para o facto de a pessoa estar a comer menos, mas tentar perceber o que mudou e o que poderá estar a influenciar esse comportamento. Conhecer a pessoa, a sua história, as suas preferências e aquilo que lhe faz sentido permite adaptar os cuidados e, sempre que possível, manter a sua autonomia e capacidade de escolha.

Susana Mendes

Psicóloga da Nutrémia, Clínica de Nutrição e do Comportamento & Loja biológica

Artigos científicos recomendados

Volkert D, Beck AM, Cederholm T, et al. ESPEN guideline on clinical nutrition and hydration in geriatrics. Clin Nutr. 2019;38(1):10-47.

World Health Organization. Integrated care for older people (ICOPE): guidance for person-centred assessment and pathways in primary care. Geneva: World Health Organization; 2019.

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