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Pimenta na língua

“Pimenta na língua“ parece ser sempre uma ameaça. Numa consulta de nutrição, há sempre este receio, ou até esta procura. Ora porque não se cumpriu com o plano alimentar, e a nutricionista é percecionada como uma inspetora de falhas, ora porque não se cumpriu de forma exímia e imagina-se a luta entre um “anjo“ e um “diabinho“ a sobrevoar os nossos ombros. Quem conhece a mesa do meu consultório, sabe que tenho um anjo em cerâmica que, ao invés de ter ido para a árvore de natal há uns anos, conquistou este lugar. Primeiro porque quem me ofereceu – uma colega de profissão e amiga – tem qualidades que gosto de ter por perto e, este “anjo“ pode ser fonte da sua boa energia, a contagiar os meus pacientes. Ademais, um “anjo“ verdadeiro não ganha diminuitivos como quando nos referimos ao “diabinho“. Um “anjo“ é confiante, comprometido e atento aos diferentes ângulos, ponderado e sóbrio. Engane-se quem entende que é o “diabinho“ que recebe os elogios de desenvolto, entusiasmante e airoso. Podemos até gargalhar em relação a desvios alimentares que possamos cometer sem reflexão e equilíbrio, mas, analisamos que a energia deste é tóxica e cansativa. Por isso, um “diabinho“ nunca ganhou lugar na minha mesa e, nunca julgo ou repreendo quem acompanho em consulta. Escuso, e nem tenho motivos para isso, de ameaçar com “pimenta na língua“.

Quem conhece a mesa do meu consultório, sabe, ainda, que os sofás, o meu e o da outra parte (paciente ou com quem reúna), são todos iguais. Nada de cor, tamanho ou conforto distintos. Há uma relação de um para um, de reciprocidade, de escuta ativa e de responsabilização igual. Não significa que não haja o “distanciamento“ que uma relação naquele contexto exige para que seja profissional! Cada um tem o seu lugar e a sua função. Se uma parte está ali para orientar e monitorizar a outra, deve haver o reconhecimento, por parte desta última, que existem posições diferentes. Dizem, por vezes, que uma nutricionista tem que ter muita “paciência“. Respondo que não. É apenas um exercício de resiliência, de mostrar que não é uma questão de “sim ou não“ ou absolutos, mas de conquista de consciência e de verbalizar e, assim, depois, se conseguir dar novos passos para a mudança de comportamentos.

O impulso é um ato pouco sensato quando a pessoa decide planos de ação, ou de reação, que ultrapassam a razoabilidade ao se proporem a alterações que inflacionam as expectativas ou, de desistência ou, ainda, de comportamentos de oposição quando se realiza que é preciso caminhar e não se sabe como. É preciso que se caminhe nas condições que se estão a criar para o objetivo conjunto. Um caminho requer um caminhante que seja parte ativa. A assertividade de quem orienta e monitoriza é imprescindível.

Ninguém é perfeito mas, dos poucos que precisam de “pimenta na língua“, são aqueles que, pelas suas fragilidades pessoais e de maturidade, preferem ter antes a “língua afiada“. No entanto, o “diabinho“ é sempre sacudido para que o ambiente seja sereno e imperturbável. Aqui, pode-se já discutir se é ser paciente ou diplomático. Quem empreende de raíz compreende bem todos estes pesos. Porque na Nutrémia falamos para além das calorias®.  

Teresa Campos, Nutricionista e Diretora clínica da Nutrémia, Clínica de Nutrição e do Comportamento

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