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Quando a dificuldade não está no plano alimentar – está na necessidade de perfeição

Na prática clínica, é frequente encontrar utentes que procuram seguir a alimentação “da forma certa”. Tentam cumprir horários de forma rígida, eliminar determinados alimentos ou manter um controlo constante sobre aquilo que comem. Quando não conseguem, surge frequentemente a sensação de falha, frustração ou perda de controlo.

No entanto, muitas das dificuldades alimentares observadas em consulta não resultam apenas das escolhas alimentares em si, mas da relação que a pessoa estabelece com o próprio processo alimentar.

A alimentação não acontece num contexto isolado. Acontece no meio da rotina, do trabalho, do cansaço, da vida familiar, da gestão emocional e das exigências do dia-a-dia. Quando o plano alimentar é construído sem considerar esta realidade, tende a tornar-se difícil de manter – mesmo quando é nutricionalmente correto.

É neste ponto que a intervenção nutricional exige adaptação e interpretação clínica.

Em muitos casos, o principal desafio não está em corrigir imediatamente a ingestão alimentar, mas em perceber o que está a comprometer a adesão, a autorregulação e a consistência da intervenção ao longo do tempo. Há pessoas que conseguem manter uma alimentação organizada durante alguns dias, mas não perante alterações de rotina. Outras associam a alimentação a regras excessivamente rígidas, alternando entre controlo e desorganização alimentar. Há ainda quem interprete qualquer desvio ao plano como ausência de disciplina, abandonando rapidamente o acompanhamento.

Nestes contextos, insistir apenas em mais restrição, mais controlo ou mais regras pode agravar a dificuldade existente.

Um dos erros mais comuns é assumir que a dificuldade resulta apenas de falta de motivação ou de conhecimento nutricional, desvalorizando o impacto da rigidez, do contexto e da relação da pessoa com a alimentação.

Por isso, nem sempre a prioridade da intervenção passa por aumentar o nível de exigência alimentar. Em determinados casos, pode ser mais importante estabilizar rotinas, definir objetivos realistas, promover automonitorização útil e construir estratégias que a pessoa consiga integrar de forma progressiva e sustentável.

Um plano alimentar não deve funcionar como uma prova de perfeição. Deve funcionar como uma ferramenta clínica ajustada à realidade da pessoa, capaz de promover organização, adesão e progressão ao longo do tempo.

Na prática da Nutrémia, isto implica reconhecer que pequenas adaptações podem ter mais impacto do que estratégias teoricamente ideais, mas difíceis de integrar no quotidiano. Implica também compreender que a adesão alimentar depende não apenas do conhecimento nutricional, mas da capacidade da pessoa construir uma relação mais consistente e sustentável com a alimentação.

Porque, em nutrição clínica, nem sempre o problema está na falta de informação. Muitas vezes, está na dificuldade em transformar essa informação em comportamentos possíveis de manter no tempo.

Teresa Campos
Nutricionista e Diretora da Nutrémia, Clínica de Nutrição e do Comportamento & Loja biológica

Artigo recomendado:
Teixeira PJ, Marques MM. Health behavior change for obesity management. Obes Facts. 2017;10(6):666-73.

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