A investigação e a prática aliadas
Em contexto institucional, uma ementa nutricionalmente adequada nem sempre garante uma ingestão alimentar suficiente. Comer menos nem sempre significa falta de apetite e uma refeição recusada pode traduzir realidades muito diferentes: disfagia, dor, fadiga durante a refeição, dependência funcional, dificuldade de adaptação à textura alimentar ou mesmo alterações cognitivas e emocionais.
Na prática, este é um dos desafios mais frequentes da nutrição geriátrica: perceber que o problema nem sempre está naquilo que é servido – mas, muitas vezes, naquilo que a pessoa efetivamente consegue, aceita e tolera comer.
É precisamente neste enquadramento que o trabalho desenvolvido pela Nutrémia em contexto institucional foi recentemente reconhecido pelo Fundo Social do Município de Braga, parceiro da Nutrémia desde 2011, através da sua newsletter institucional.
Como é referido na publicação:
“A Nutrémia tem vindo a consolidar, ao longo dos seus 18 anos de existência, uma intervenção diferenciadora que articula a nutrição clínica com a nutrição comunitária, com forte compromisso com a prática baseada na evidência e a investigação aplicada.”
Mais do que um reconhecimento institucional, esta referência acaba por traduzir algo que temos vindo a aprender no terreno: investigação e prática clínica tornam-se mais úteis quando deixam de existir em separado.
Atualmente, encontra-se em desenvolvimento um projeto de investigação em contexto de Estruturas Residenciais para Pessoas Idosas (ERPI), da responsabilidade técnica da Nutrémia, centrado na avaliação do risco nutricional, da ingestão alimentar real e do impacto de uma intervenção nutricional multimodal, estruturada e adaptada à realidade institucional.
Mas, na prática, o que significa isto? Significa reconhecer que a nutrição geriátrica vai muito além da refeição planeada. Uma dieta ajustada do ponto de vista nutricional pode continuar a ser insuficiente quando a pessoa não consegue mastigar adequadamente, apresenta cansaço durante a refeição, necessita de apoio funcional, rejeita determinadas texturas ou interrompe a ingestão precocemente.
Significa também perceber que monitorizar apenas peso ou ementas nem sempre é suficiente. Torna-se necessário observar a ingestão alimentar real, compreender limitações, interpretar sintomas e ajustar continuamente a intervenção à realidade concreta de cada pessoa.
Por isso, a intervenção desenvolvida integra avaliação sistemática do estado nutricional, monitorização da ingestão, adequação de dietas, educação para a saúde, desenvolvimento de instrumentos técnicos de apoio e capacitação de equipas e cuidadores. Talvez uma das aprendizagens mais importantes da prática institucional seja esta: observar também faz parte da intervenção. Porque, em muitos casos, aquilo que parece “falta de apetite” pode traduzir um problema funcional, clínico ou sensorial que exige outra leitura e outra decisão.
É precisamente neste ponto que investigação e prática deixam de estar separadas e passam a construir respostas concretas para desafios reais.
Este reconhecimento reforça algo que procuramos manter desde o início: uma prática de nutrição clinicamente fundamentada, tecnicamente exigente e próxima das necessidades da comunidade.
Em nutrição clínica, compreender a realidade da pessoa continua a ser tão importante quanto conhecer a evidência. Porque na Nutrémia falamos para além das calorias®.
Teresa Campos, Nutricionista e Diretora da Nutrémia, Clínica de Nutrição e do Comportamento & Loja biológica
Artigo recomendado:
Volkert D, Beck AM, Cederholm T, Cruz-Jentoft AJ, Goisser S, Hooper L, et al. ESPEN guideline on clinical nutrition and hydration in geriatrics. Clin Nutr. 2019;38(1):10-47.

