Triglicerídeos elevados: será sempre resistência à insulina?
É relativamente frequente associarmos triglicerídeos elevados a excesso de peso, alimentação desequilibrada ou resistência à insulina.
Na maioria das situações, esta associação está correta. Mas será sempre assim? Em Nutrição Clínica, um resultado laboratorial raramente tem uma única explicação. O mesmo marcador pode refletir mecanismos fisiopatológicos muito diferentes, dependendo da pessoa, da doença de base, da terapêutica instituída e do contexto em que é avaliado. Os triglicerídeos não são exceção.
O que os triglicerídeos nos dizem
Os triglicerídeos constituem a principal forma de armazenamento de gordura no organismo e desempenham um papel importante no metabolismo energético. Quando avaliados em conjunto com outros parâmetros clínicos e laboratoriais, podem fornecer informação relevante sobre o risco cardiometabólico e sobre diferentes alterações metabólicas. Em contexto de resistência à insulina, por exemplo, é frequente observar-se hipertrigliceridemia. A diminuição da ação da insulina favorece o aumento da produção hepática de lipoproteínas ricas em triglicerídeos e reduz a sua remoção da circulação, contribuindo para a elevação dos seus valores plasmáticos. Esta é, provavelmente, a situação mais conhecida. Mas não é a única.
O mesmo resultado pode ter significados diferentes
Existem contextos clínicos em que valores elevados de triglicerídeos resultam de mecanismos completamente distintos. Algumas doenças renais, alterações endócrinas, doenças hepáticas, formas hereditárias de dislipidemia ou determinados medicamentos podem modificar o metabolismo lipídico independentemente da presença de resistência à insulina. Também em pessoas submetidas a nutrição parentérica ou em doentes críticos, a interpretação deste marcador exige uma leitura integrada do estado clínico, da resposta inflamatória, da terapêutica e da evolução metabólica. Nestes casos, os triglicerídeos deixam de ser apenas um indicador de risco cardiometabólico para assumirem também um papel na monitorização da resposta clínica e da tolerância ao tratamento.
O contexto continua a ser determinante
Perante um resultado laboratorial, a pergunta mais importante raramente é “o valor está elevado?”. A verdadeira questão é outra. Porque está elevado?
Responder a esta pergunta implica conhecer a história clínica da pessoa, os seus antecedentes, a medicação, a presença de inflamação, o estado nutricional, a função hepática e renal, bem como os restantes resultados laboratoriais.
O mesmo valor pode traduzir situações completamente diferentes. É precisamente por isso que interpretar análises não significa apenas comparar números com intervalos de referência. Significa compreender os mecanismos que lhes dão origem.
O laboratório não substitui o raciocínio clínico
Na prática clínica, nenhum marcador bioquímico faz um diagnóstico por si só. Os triglicerídeos elevados podem constituir um sinal importante, mas apenas adquirem verdadeiro significado quando interpretados no contexto de cada pessoa. É essa integração entre informação clínica, avaliação nutricional e dados laboratoriais que permite compreender o problema e definir a intervenção mais adequada. Porque, em Medicina e em Nutrição Clínica, o mesmo resultado laboratorial pode contar histórias muito diferentes. E é o raciocínio clínico que permite perceber qual delas estamos a ouvir.
Teresa Campos
Nutricionista e Diretora da Nutrémia, Clínica de Nutrição e do Comportamento & Loja biológica
Falamos para além das calorias®.
Artigo científico recomendado
Miller M, Stone NJ, Ballantyne C, et al. Triglycerides and cardiovascular disease: A scientific statement from the American Heart Association. Circulation. 2011;123(20):2292-333.

