Uma pessoa não é um processo: repensar as respostas ao envelhecimento
Durante a 11.ª Semana Social da UDIPSS-Braga, dedicada ao envelhecimento, à longevidade e aos desafios do setor social, fui tomando notas sobre diferentes ideias que acabaram por convergir numa reflexão que continua atual muito para além do evento.
Ao longo destes dois dias, as intervenções do Dr. Miguel Telo de Arriaga, Diretor da Direção de Serviços de Prevenção da Doença e Promoção da Saúde da Direção-Geral da Saúde, do Pe. José Antunes, Presidente da UDIPSS-Braga, da Dra. Clara Marques Mendes e do Dr. Pedro Mota Soares, entre outros participantes, trouxeram diferentes perspetivas sobre os desafios do envelhecimento, da longevidade e da organização das respostas em saúde e no setor social.
Uma das ideias que atravessou diferentes intervenções acabou por reforçar uma convicção que eu já tinha: Uma pessoa não é um processo.
Pode parecer uma afirmação simples. No entanto, encerra um desafio profundo para quem trabalha na área da saúde, da intervenção social ou da gestão de organizações.
Com frequência, os sistemas organizam-se em torno de processos, normas, indicadores e respostas. Tudo isso é necessário. Mas quando o processo passa a ocupar o lugar da pessoa, perde-se precisamente aquilo que justificou a sua existência.
O envelhecimento não pode ser reduzido à doença
Vivemos mais anos. Essa realidade representa uma conquista da sociedade.
Mas viver mais não significa apenas aumentar a esperança de vida. Significa compreender que as pessoas envelhecem de formas diferentes, com histórias, recursos, capacidades, fragilidades e projetos de vida distintos.
Por isso, centrar a intervenção apenas na doença ou nas limitações é insuficiente.
Importa olhar para a funcionalidade, para a autonomia, para a participação social, para as relações, para a alimentação, para o exercício físico, para a saúde mental e para todos os fatores que influenciam a qualidade de vida.
Quando falamos de envelhecimento, falamos inevitavelmente de pessoas.
Problemas multidimensionais dificilmente encontram monorrespostas
Outra ideia que fui consolidando ao longo destes dois dias foi a de que muitos dos desafios atuais deixaram de poder ser resolvidos por uma única disciplina, uma única organização ou um único setor.
Ao longo dos últimos anos tenho encontrado esta realidade repetidamente na prática clínica e em diferentes contextos de intervenção. O envelhecimento talvez seja o exemplo mais evidente dessa complexidade. Uma pessoa pode necessitar, em simultâneo, de acompanhamento clínico, apoio nutricional, intervenção psicológica, exercício físico adaptado, respostas sociais e suporte familiar. Nenhuma destas áreas substitui as restantes. Cada uma responde apenas a uma parte da realidade.
A alimentação deixa rapidamente de ser apenas uma questão de nutrientes. Passa a relacionar-se com autonomia, funcionalidade, prazer, identidade, relações sociais e qualidade de vida. Construir respostas mais eficazes implica reconhecer esta complexidade e criar condições para que diferentes profissionais, diferentes instituições e diferentes níveis de cuidados consigam trabalhar de forma articulada.
Também o setor privado faz parte da resposta
Por vezes, quando se discute envelhecimento, o debate centra-se quase exclusivamente nas respostas públicas ou no setor social. Contudo, muitas pessoas percorrem diariamente diferentes contextos de intervenção. São acompanhadas no centro de saúde, recorrem ao hospital, frequentam respostas sociais, realizam consultas em contexto privado e contam com diferentes profissionais ao longo do seu percurso. Esta diversidade de contextos não representa um problema. Pelo contrário.
Quando existe comunicação, complementaridade e respeito pelas competências de cada interveniente, torna-se possível construir respostas mais integradas e mais centradas nas necessidades reais das pessoas. A continuidade dos cuidados constrói-se precisamente quando estes diferentes contextos conseguem comunicar entre si e reconhecer o contributo específico de cada um.
A experiência prática também produz conhecimento
Ao longo da minha atividade profissional tenho percebido que a prática não serve apenas para aplicar conhecimento. Serve também para gerar novas perguntas. Os profissionais que acompanham pessoas diariamente identificam dificuldades, oportunidades e necessidades que nem sempre são imediatamente visíveis nos modelos organizacionais.
Criar espaços de auscultação, promover grupos focais, integrar diferentes experiências profissionais e valorizar a prática como fonte de aprendizagem pode contribuir para definir estratégias mais ajustadas às realidades concretas. Melhorar as respostas exige evidência científica. Mas exige igualmente capacidade para escutar quem trabalha diariamente junto das pessoas.
Continuar a colocar a pessoa no centro
Retive ainda uma frase atribuída ao Pe. Lino Maia durante estes dias: “Comportarmo-nos com o que servimos.”
Esta é uma das exigências mais importantes para quem trabalha com pessoas. Os processos continuarão a ser necessários. Os indicadores também. Mas nenhum deles pode substituir a pessoa. A principal mudança de paradigma é deixar de perguntar apenas “que resposta existe?” para começar também a perguntar “que pessoa temos diante de nós?”.
Se queremos preparar respostas para uma sociedade que vive mais anos, talvez o primeiro passo seja precisamente este: pensar menos em acrescentar anos à vida e mais em criar condições para que cada pessoa possa viver esses anos com autonomia, significado, participação e qualidade de vida. No final, uma pessoa nunca é apenas um processo e tem sempre a sua liberdade de escolha.
Teresa Campos
Nutricionista e Diretora da Nutrémia, Clínica de Nutrição, do Comportamento & Loja Biológica
Palavras para além das calorias®.
Referências recomendadas
Direção-Geral da Saúde. Programa Nacional para a Saúde das Pessoas Idosas.
World Health Organization. World Report on Ageing and Health. Geneva: WHO; 2015.

