Falamos à mesa
“Falamos à mesa“ é uma expressão usada e cheia de sentido. A mesa surgiu na história para nos permitir a partilha de alimentos e para facilitar o ato de comer. À refeição foi, ainda, acrescentado o valor da partilha da palavra. Comer sozinho ou sem a dedicação necessária eram sinais de não civilização. Os tempos contemporâneos trouxeram mudanças, inclusive com a cabeça virada para a televisão e com espaço para mais um artefacto junto do prato – o telemóvel. “Falamos à mesa“? Também, é uma expressão usada quando o momento é aproveitado para reprimir outro. O telemóvel e a televisão já sossegam qualquer espaço para desarmonia. Já não se gastam calorias a conversar. Ingerem-se apenas as calorias dos alimentos e as toxinas do telemóvel, da televisão e de algum ambiente tenso.
Esta ausência de se saber estar em diálogo não se verifica só à mesa. Em outros artigos, falei aqui, da importância que dou ao diálogo na minha consulta de Nutrição. Recebo, pela disponibilidade, mais informação que será útil ao objetivo clínico. O diálogo permite ainda dar voz ao que a pessoa não tem concretizado na alimentação e noutros hábitos. As palavras não são levadas com o vento! Ditas aumentam a consciência e promovem melhor o passo do autocuidado. Nas empresas, está-se a dar uma outra atenção para se tornar o ambiente de trabalho mais fértil na sensação de pertença e numa atitude mais alegre. Já falei que o diálogo com o património, a cultura e a própria natureza ajudaria a encontrarmos mais lugar para a serenidade individual e para um outro espaço reflexivo. São todos diálogos que, emergentemente, devem acontecer de forma mais regular para depois, se tornarem mais orgânicos. A vontade de fazer é, sem dúvida, um bom primeiro passo mas a vontade de tudo fazer deve ser mais refletida, colaborativa e confiável. É estar à mesa mas saber dialogar.
Outro erro, na minha opinião, é a disposição (forçada) dos lugares em qualquer mesa, mesmo na nossa casa. Porque temos lugares fixos? A troca promoveria outro tipo de conversas que num ângulo estariam mais caladas. Também não será sempre para estar em diálogo. As pausas fazem parte de um diálogo.
Tomás de Aquino, um pensador do século XV, diz que “o vício da gula não consiste na substância do alimento, mas no desejo não regulado pela razão”. É por este motivo que, quando se excede a quantidade normal de alimentos, não devido ao desejo, mas porque se entende que isso é necessário, não se trata de gula, mas de uma certa inexperiência. Trata-se de gula, “quando se exagera conscientemente a comer“. Todas as ausências de “estar à mesa“ (com o seu interior e o outro) são sinal claro dessa inexperiência adquirida pelo não cultivo do diálogo. Retira-nos a capacidade de humanidade e, depois, a capacidade de humanização das relações, dos serviços, das organizações e dos alicerces que definem o que é a sociedade. Há uma atitude de indiferença e uma “gula“ de tudo acontecer sem se ter bem a consciência do que falta na verdade. E à mesa, acabam-se por ingerir as calorias dos alimentos e as toxinas do telemóvel, da televisão, de algum ambiente tenso e dos dias que passam. Numa consulta de nutrição fala-se para além das calorias.
Teresa Campos, Nutricionista e Diretora clínica da Nutrémia, Clínica de Nutrição e do Comportamento

