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A melhor ferramenta de avaliação nutricional não existe. E isso é uma boa notícia. 

É relativamente frequente ouvir falar em questionários, escalas ou ferramentas de avaliação nutricional. Perante tantas opções, é natural pensar que exista um instrumento “mais completo” ou “mais correto”, capaz de avaliar qualquer pessoa em qualquer contexto. Na prática clínica, a realidade é bastante diferente. Em Nutrição Clínica, a melhor ferramenta não é aquela que tem mais perguntas. É aquela que foi desenvolvida para responder às necessidades da pessoa que temos à nossa frente.

Avaliar começa antes de aplicar um questionário

A avaliação nutricional não consiste apenas em preencher um formulário. Começa pela compreensão do contexto clínico. A idade, a doença de base (caso exista), a capacidade funcional, os sintomas, a evolução clínica e os objetivos da intervenção condicionam a forma como avaliamos o estado nutricional e o risco de malnutrição. É precisamente por isso que foram desenvolvidos diferentes instrumentos, cada um com finalidades específicas.

A mesma pergunta nem sempre faz sentido para todas as pessoas

Uma pessoa idosa institucionalizada enfrenta desafios diferentes de um adulto jovem em consulta. Da mesma forma, uma pessoa com doença oncológica pode apresentar alterações muito particulares, como perda de apetite, náuseas, alterações do paladar, dificuldade em mastigar ou engolir, fadiga associada aos tratamentos ou perda de peso involuntária. Estes fatores têm um impacto direto no estado nutricional e exigem uma avaliação adaptada à realidade clínica.

A título de exemplo, foi neste contexto que surgiu a Patient-Generated Subjective Global Assessment (PG-SGA), uma ferramenta especificamente desenvolvida e validada para pessoas com doença oncológica. Para além da ingestão alimentar e da perda de peso, integra sintomas e alterações funcionais particularmente relevantes nesta população, permitindo identificar precocemente situações que justificam intervenção nutricional. Por sua vez, temos também o exemplo do Mini Nutritional Assessment (MNA) que, em pessoas idosas, apresenta maior utilidade, uma vez que contempla aspetos frequentemente associados ao envelhecimento, como a mobilidade, a autonomia e a presença de problemas neuropsicológicos.

Nenhuma destas ferramentas é “melhor” do que a outra. Cada uma responde a uma realidade diferente.

A ferramenta apoia. O raciocínio clínico decide.

Na Nutrémia, a avaliação nutricional não assenta numa única ferramenta. A escolha dos instrumentos depende sempre da pessoa, do motivo da consulta e do contexto clínico. A informação recolhida é posteriormente integrada com a história clínica, a avaliação antropométrica, a composição corporal, os hábitos alimentares, a funcionalidade, os exames complementares de diagnóstico e os objetivos terapêuticos. Só esta visão global permite compreender verdadeiramente o estado nutricional e definir uma intervenção individualizada. As ferramentas são fundamentais. Mas continuam a ser instrumentos. Não substituem o conhecimento científico, a experiência clínica nem a capacidade de interpretar cada situação de forma individual.

A pessoa vem sempre antes da ferramenta

Uma das ideias mais importantes em Nutrição Clínica é esta: não existem ferramentas universais. Existem ferramentas adequadas para pessoas e contextos diferentes. Mais do que procurar o questionário “perfeito”, importa saber escolher aquele que melhor responde à realidade clínica de cada pessoa. Porque, no fim, não avaliamos formulários. Avaliamos pessoas.

Teresa Campos

Nutricionista e Diretora da Nutrémia, Clínica de Nutrição e do Comportamento & Loja biológica

Falamos para além das calorias®.

Leitura recomendada

Bauer J, Capra S, Ferguson M. Use of the scored Patient-Generated Subjective Global Assessment (PG-SGA) as a nutrition assessment tool in patients with cancer. Eur J Clin Nutr. 2002;56(8):779-785.

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