As perguntas também fazem parte da avaliação nutricional
Em contexto de Estruturas Residenciais para Pessoas Idosas (ERPI), é frequente surgirem perguntas aparentemente simples. “Tenho de beber água mesmo sem sede?”. “Como posso ajudar um utente que come pouco ou recusa a refeição?”. “Uma dieta cremosa é suficiente para garantir uma boa alimentação?”
À primeira vista, estas dúvidas parecem exigir respostas rápidas e objetivas. No entanto, na prática clínica, cada uma delas representa uma oportunidade para compreender melhor a realidade da pessoa e orientar uma decisão clínica mais ajustada.
A pergunta raramente é o verdadeiro problema
Uma pessoa que refere não sentir sede pode estar a revelar um risco aumentado de desidratação. Outra que recusa a refeição poderá não estar apenas sem apetite. A dificuldade pode resultar de disfagia, dor, alterações cognitivas, dependência funcional, cansaço durante a refeição ou de um ambiente pouco favorável à alimentação.
Da mesma forma, uma textura adaptada pode aumentar a segurança da deglutição sem garantir, por si só, uma ingestão energética e proteica suficiente.
Responder apenas à pergunta seria insuficiente. O verdadeiro desafio consiste em interpretar o que essa pergunta nos está a revelar.
Da escuta à interpretação
A avaliação nutricional não se limita à recolha de dados antropométricos ou ao cálculo das necessidades nutricionais. Inclui também a observação da ingestão alimentar real, da forma como decorrem as refeições, da autonomia funcional, da capacidade de mastigação e deglutição, do tempo necessário para comer e dos fatores que condicionam a aceitação dos alimentos.
Cada informação acrescenta uma nova peça ao raciocínio clínico. É esta integração que permite compreender se existe um problema de ingestão, um risco de desnutrição ou uma necessidade de adaptação da intervenção.
A decisão começa antes da prescrição
Em Nutrição Clínica, responder não é o objetivo final. Antes de decidir, é necessário interpretar.
Pode ser necessário adaptar a textura alimentar, enriquecer nutricionalmente as refeições, fracionar a alimentação, reforçar o apoio durante as refeições, implementar estratégias para aumentar a ingestão hídrica ou articular com outros profissionais da equipa. Todas estas decisões resultam da interpretação da realidade individual e não da aplicação automática de uma recomendação.
A evidência também apoia esta abordagem
As recomendações internacionais em nutrição geriátrica defendem que a identificação precoce de alterações da ingestão alimentar, da hidratação, da funcionalidade e da composição corporal constitui um elemento essencial para prevenir a desnutrição e preservar a autonomia da pessoa idosa. Mais do que responder a sintomas isolados, importa compreender os fatores que lhes dão origem e atuar sobre eles de forma integrada.
Escutar também é uma competência clínica
Uma pergunta simples pode revelar muito mais do que uma curiosidade. Pode traduzir dificuldades na alimentação, limitações funcionais, alterações da deglutição ou necessidades ainda não identificadas.
É por isso que, em contexto de ERPI, escutar faz parte da avaliação nutricional. A intervenção começa muito antes da prescrição. Começa no momento em que uma pergunta deixa de ser apenas uma pergunta e passa a constituir um dado clínico que merece ser compreendido.
Teresa Campos
Nutricionista e Diretora da Nutrémia, Clínica de Nutrição e do Comportamento & Loja biológica
Falamos para além das calorias®.
Artigo científico recomendado
Volkert D, Beck AM, Cederholm T, Cruz-Jentoft A, Goisser S, Hooper L, et al. ESPEN guideline on clinical nutrition and hydration in geriatrics. Clin Nutr. 2019;38(1):10-47.

