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Nutrição e doença oncológica: cuidar exige diferentes olhares

Prevenir, cuidar e viver são dimensões complementares da saúde. A sua concretização exige conhecimento, proximidade e articulação entre diferentes profissionais, reconhecendo que nenhuma área, isoladamente, responde à complexidade das necessidades de cada pessoa.

No passado dia 24 de outubro de 2026, a Nutrémia participou na iniciativa comunitária «Outubro Rosa & Novembro Azul | Prevenir. Cuidar. Viver.», realizada no Planetário – Ciência Viva de Braga, numa organização da Comissão de Utentes e da Unidade de Saúde Familiar de Gualtar.

A iniciativa reuniu profissionais e representantes de diferentes áreas da saúde, num percurso constituído por cinco mesas interativas: Outubro Rosa, Saúde do Homem, Nutrição e Doença Oncológica, Exercício Físico e Liga Portuguesa Contra o Cancro.

Mais do que a transmissão de informação, esta organização permitiu aos participantes contactar com diferentes perspetivas sobre prevenção, doença, tratamento e recuperação, esclarecendo dúvidas num ambiente de proximidade.

A Nutrémia dinamizou a mesa «Nutrição e Doença Oncológica | Alimentar hoje, mais vida amanhã», abordando o contributo da alimentação na redução do risco de determinados tipos de cancro, durante os tratamentos e na recuperação.

A alimentação não desempenha sempre o mesmo papel

Uma das principais mensagens partilhadas foi a necessidade de distinguir três momentos: antes do diagnóstico, durante o tratamento e após o tratamento.

Na prevenção, a alimentação integra um conjunto de comportamentos modificáveis associados à redução do risco de determinados tipos de cancro. Contudo, não existe um alimento capaz de prevenir isoladamente a doença, nem um padrão alimentar que elimine completamente esse risco.

Durante o tratamento oncológico, as prioridades podem alterar-se substancialmente. A perda de apetite, as náuseas, as alterações do paladar, a disfagia, a mucosite ou outras complicações podem comprometer a ingestão alimentar e o estado nutricional.

Nestes casos, recomendações habitualmente adequadas à população saudável podem deixar de responder às necessidades individuais. A intervenção nutricional deve considerar o diagnóstico, o tratamento, o estado nutricional, a sintomatologia e a capacidade funcional, procurando prevenir ou tratar a malnutrição e preservar a massa muscular.

Na recuperação, a alimentação continua a desempenhar um papel importante, contribuindo para a reabilitação nutricional, a recuperação funcional e a manutenção da saúde a longo prazo.

O objetivo da intervenção nutricional não é, por isso, igual em todas as fases. O raciocínio clínico deve orientar a escolha das recomendações, e não apenas o diagnóstico da doença.

Reduzir o risco começa nas escolhas habituais

Ao longo da iniciativa, procurámos traduzir a evidência científica em orientações concretas para o quotidiano.

Entre as recomendações alimentares mais relevantes para a redução do risco de determinados tipos de cancro, destacam-se:

  • Valorizar os alimentos de origem vegetal, incluindo hortícolas, fruta, leguminosas e cereais integrais, promovendo a diversidade e um aporte adequado de fibra alimentar.

  • Limitar o consumo de carne vermelha e evitar, tanto quanto possível, as carnes processadas, como enchidos e outros produtos de charcutaria.

  • Reduzir o consumo habitual de bebidas açucaradas e de produtos alimentares com elevada densidade energética e baixo valor nutricional.

  • Evitar o consumo de bebidas alcoólicas, uma vez que o álcool constitui um fator de risco reconhecido para vários tipos de cancro.

  • Privilegiar um padrão alimentar equilibrado e sustentável, associado à prática regular de atividade física e à manutenção de um peso corporal adequado.

Estas orientações devem ser interpretadas no contexto global do estilo de vida e não como regras alimentares isoladas.

Também importa reconhecer que a redução do risco não equivale à eliminação da possibilidade de desenvolver doença oncológica. A sua ocorrência envolve múltiplos fatores, incluindo caraterísticas genéticas, ambientais e individuais.

Por outro lado, durante o tratamento, a prioridade poderá ser assegurar um aporte energético e proteico suficiente, mesmo quando isso implica adaptar temporariamente escolhas alimentares habitualmente recomendadas para a prevenção.

É precisamente esta distinção que torna necessária uma avaliação nutricional individualizada.

A interdisciplinaridade como condição para cuidar melhor

A doença oncológica evidencia particularmente a importância de uma abordagem interdisciplinar.

A intervenção médica, os cuidados de enfermagem, a nutrição, a psicologia, o exercício físico adaptado e o apoio social respondem a necessidades distintas, mas frequentemente interdependentes.

Uma pessoa pode necessitar de ajustar a alimentação devido a dificuldades de deglutição, de apoio psicológico perante alterações emocionais, de acompanhamento na recuperação da capacidade funcional ou de orientação sobre os recursos disponíveis para si e para a família.

Estas necessidades não surgem necessariamente de forma isolada, nem podem ser adequadamente compreendidas apenas a partir de uma dimensão da saúde.

A interdisciplinaridade exige, assim, mais do que a presença de diferentes profissionais. Pressupõe reconhecimento das competências de cada área, comunicação, articulação de objetivos e complementaridade nas decisões, respeitando as responsabilidades e os limites de atuação profissional.

Foi também este o significado da iniciativa: permitir que diferentes áreas contribuíssem, a partir das suas competências, para uma compreensão mais abrangente da prevenção e dos cuidados em saúde.

A fotografia conjunta dos participantes e dinamizadores representa esse encontro de perspetivas e recorda que a qualidade dos cuidados depende, em grande medida, da capacidade de trabalhar em conjunto.

Da informação à capacitação

A existência de cinco mesas interativas, complementadas pelo «Passaporte da Saúde», incentivou os participantes a percorrer diferentes dimensões do cuidado e a colocar questões diretamente aos profissionais.

Este modelo de intervenção comunitária valoriza a literacia em saúde, não apenas pela disponibilização de informação, mas pela oportunidade de a compreender, questionar e relacionar com decisões concretas.

Na mesa dedicada à Nutrição, as conversas permitiram esclarecer dúvidas, desconstruir mitos e reforçar que a alimentação deve ser entendida como parte integrante dos cuidados, sem lhe atribuir efeitos que a evidência científica não sustenta.

Agradecemos à Comissão de Utentes e à USF Gualtar o convite e a organização da iniciativa, ao Planetário – Ciência Viva de Braga, à Liga Portuguesa Contra o Cancro – Delegação de Braga e aos restantes intervenientes a oportunidade de integrar este espaço de partilha e proximidade com a comunidade.

A promoção da saúde não depende apenas da qualidade da informação transmitida, mas também da forma como diferentes conhecimentos se encontram e se traduzem em cuidados ajustados às necessidades das pessoas.

Porque cuidar melhor não significa olhar apenas para a doença, mas compreender a pessoa nas suas diferentes dimensões.

Teresa Campos

Nutricionista e Diretora da Nutrémia, Clínica de Nutrição e do Comportamento & Loja biológica

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Artigos científicos recomendados

World Cancer Research Fund/American Institute for Cancer Research. Diet, nutrition, physical activity and cancer: a global perspective. Continuous Update Project Expert Report 2018. London: World Cancer Research Fund International; 2018.

Muscaritoli M, Arends J, Bachmann P, Baracos V, Barthelemy N, Bertz H, et al. ESPEN practical guideline: Clinical Nutrition in cancer. Clin Nutr. 2021;40(5):2898-2913. 

World Health Organization. Framework for action on interprofessional education & collaborative practice. Geneva: World Health Organization; 2010.

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