Para além das análises: interpretar antes de concluir
Na prática clínica, é comum recorrer a marcadores laboratoriais para apoiar a avaliação do estado nutricional. Entre os mais utilizados estão a albumina, a pré-albumina e a transferrina. Apesar da sua ampla utilização, a sua interpretação exige cautela clínica e enquadramento adequado.
A albumina sérica, produzida no fígado, apresenta uma semi-vida de cerca de 20 dias. Durante muito tempo foi associada ao estado nutricional, mas é atualmente reconhecida como uma proteína de fase negativa. Em contexto de inflamação, infeção ou stress metabólico, a sua concentração diminui independentemente da ingestão proteica. Por outro lado, pode aumentar em situações como desidratação. Assim, valores baixos refletem frequentemente resposta inflamatória e não, por si só, desnutrição.
A pré-albumina (transtirretina), com uma semi-vida de 2 a 3 dias, é mais sensível a alterações recentes, sendo por isso utilizada na monitorização a curto prazo. No entanto, também diminui em estados inflamatórios e catabólicos agudos, partilhando a principal limitação da albumina. A sua interpretação deve ser sempre integrada no contexto clínico.
A transferrina, com uma semi-vida intermédia (cerca de 8 a 10 dias), é influenciada não só pela inflamação e função hepática, mas também pelo metabolismo do ferro. Pode aumentar em défice de ferro e diminuir em sobrecarga ou doença inflamatória, o que reduz a sua especificidade como marcador nutricional isolado.
Em contexto de malnutrição, particularmente na população idosa e, em contexto de ERPI, estas limitações tornam-se ainda mais relevantes. A presença frequente de inflamação crónica, multimorbilidade e episódios agudos condiciona a diminuição destes parâmetros, independentemente da ingestão alimentar. Nestes casos, a sua principal utilidade reside na monitorização da evolução e na avaliação da resposta à intervenção, e não no diagnóstico isolado. A leitura sequencial, articulada com o estado clínico, permite perceber tendências e ajustar a intervenção de forma mais informada.
Importa reforçar que, mesmo na ausência destes parâmetros laboratoriais, é possível estabelecer um diagnóstico nutricional robusto. No trabalho desenvolvido em ERPI, a avaliação assenta em rastreios nutricionais estruturados (como a ferramenta MNA – Mini nutritional assessment), na monitorização sistemática do peso, na avaliação da ingestão alimentar real (registos e observação direta), na funcionalidade e no contexto clínico global. Esta abordagem permite identificar precocemente risco nutricional e orientar intervenções individualizadas. Os marcadores laboratoriais são integrados como complemento, contribuindo para a monitorização e para a leitura da evolução clínica, mas não substituem a base da avaliação. Porque na Nutrémia falamos para além das calorias®.
Teresa Campos
Nutricionista e Diretora da Nutrémia, Clínica de Nutrição e do Comportamento & Loja biológica
Artigo recomendado:
Fuhrman MP, Charney P, Mueller CM. The albumin-nutrition connection: separating myth from fact. J Parenter Enteral Nutr. 2002;26(6 Suppl):S17-22.

