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As calorias não contam toda a história. Os hidratos de carbono também não. 

Na consulta, é relativamente frequente ouvir uma explicação simples para o aumento de peso: “Estou a consumir calorias a mais.”

Embora o balanço energético continue a desempenhar um papel importante, esta explicação nem sempre permite compreender aquilo que está efetivamente a acontecer. Na prática, o organismo não responde apenas à quantidade de energia ingerida. Responde também ao tipo de nutrientes consumidos, à frequência do consumo, ao contexto metabólico e às necessidades reais da pessoa.

É precisamente neste ponto que os hidratos de carbono merecem atenção. Os hidratos de carbono constituem uma importante fonte de energia para o organismo. São particularmente relevantes para o funcionamento do sistema nervoso central, para a atividade física e para diversas funções metabólicas.

Mas o destino dos hidratos de carbono ingeridos depende daquilo que o organismo necessita naquele momento. Quando existe necessidade energética, os hidratos de carbono são utilizados como combustível. Uma parte pode ainda ser armazenada sob a forma de glicogénio, sobretudo no fígado e no músculo. A situação altera-se quando as necessidades energéticas já se encontram satisfeitas e o padrão alimentar continua a fornecer energia em excesso de forma repetida. Nesses contextos, o organismo ativa mecanismos de armazenamento. O excesso deixa de ter apenas uma função energética imediata e passa a contribuir para a acumulação de reservas corporais.

Este é um aspeto que tende a ser simplificado na discussão pública sobre alimentação. Muitas vezes, a atenção centra-se exclusivamente nas calorias ou, pelo contrário, apenas na eliminação de determinados alimentos. Na realidade, a interpretação clínica exige uma leitura mais ampla. Não basta saber quanto uma pessoa consome. É necessário compreender o que consome, em que quantidade, com que frequência, em que contexto e qual a resposta do organismo a esse padrão alimentar. Esta distinção torna-se particularmente relevante quando acompanhamos situações de excesso de peso, obesidade ou aumento progressivo da adiposidade corporal.

Nem sempre a questão principal está relacionada com refeições de grande volume. Por vezes, encontra-se na repetição de pequenas ingestões ao longo do dia, no consumo frequente de bebidas açucaradas, na utilização regular de alimentos ultraprocessados ou em padrões alimentares que, individualmente, parecem pouco significativos mas que, ao longo do tempo, contribuem para um excedente energético persistente.

Um dos erros mais frequentes consiste em assumir que todos os hidratos de carbono ingeridos terão necessariamente o mesmo destino metabólico. Mas o organismo adapta-se continuamente às circunstâncias. E é precisamente essa capacidade de adaptação que explica porque a mesma quantidade de energia pode ter significados diferentes consoante o contexto em que é consumida.

A compreensão destes mecanismos ajuda-nos também a perceber porque motivo a avaliação nutricional não se pode limitar à análise isolada de nutrientes ou à simples contagem de calorias. O comportamento alimentar, os hábitos adquiridos, o ambiente alimentar, a composição da dieta, a atividade física, a qualidade do sono, o estado de saúde e as características individuais influenciam, em conjunto, a forma como o organismo utiliza, armazena ou mobiliza energia.

Em contexto de consulta, estas questões assumem particular relevância porque muitas das explicações apresentadas pelas pessoas refletem crenças amplamente difundidas sobre alimentação, metabolismo e aumento de peso. A exploração dessas ideias permite clarificar conceitos, promover maior literacia alimentar e construir intervenções mais ajustadas à realidade clínica de cada pessoa.

Em Nutrição Clínica, o verdadeiro desafio não consiste apenas em identificar um excesso energético. Consiste em compreender os fatores que o originam, a forma como se mantêm ao longo do tempo e as estratégias mais adequadas para promover mudanças sustentáveis.

As calorias continuam a importar. Mas compreender o que acontece quando consumimos mais do que precisamos permite perceber que a avaliação nutricional dificilmente se resume a uma simples soma de números. Porque na Nutrémia falamos para além das calorias®.

Teresa Campos

Nutricionista e Diretora da Nutrémia, Clínica de Nutrição e do Comportamento & Loja Biológica

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Hall KD, Guo J. Obesity energetics: body weight regulation and the effects of diet composition. Gastroenterology. 2017;152(7):1718-27.e3.

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