“Isso passa”. Mais sobre a dor abdominal
A dor ou desconforto abdominal é dos sintomas mais comummente acusado e pode ter várias causas, ainda que seja também pouco valorizado pela maioria das pessoas e mesmo pelos profissionais de saúde. Podemos encontrar explicação em vários motivos, desde a dificuldade que a pessoa tem na própria descrição da dor até ao facto de, ao não ser acompanhada por outros sintomas, até aquele momento, ser assumido que será temporário e que temos que aguardar que desapareça. No entanto, a dor ou desconforto abdominal pode ser uma indicação valiosa no diagnóstico de patologias.
A dispepsia, correntemente tratada por indigestão, faz acompanhar a dor com a sensação de náusea, eructação e distensão abdominal e, pode ser um sinal de doença ulcerosa péptica, doença da vesícula biliar e doença do refluxo gastroesofágico. À dispepsia associa-se geralmente a gastrite que resulta de uma infeção pela ingestão de água e alimentos contaminados e que, no quadro clínico, pode evoluir para formação de tecido linfóide associado à mucosa, atrofia e perda de células da parede do estômago com perda da secreção do ácido clorídrico e do fator intrínseco e, por conseguinte, o aparecimento de anemia perniciosa, com défice da vitamina B12. A dor abdominal pode ser, também, confundida pela sensação de ardor ou sensação de enfartamento no entanto, muitas das vezes são sintomas que existem concomitantemente pelo que é importante escutar e compreender como o paciente consegue descrever aquele desconforto e, inclusive, conhecer se há alterações nas fezes, na sua consistência e frequência ou, pela presença de sangue nas mesmas. Com o exemplo destas situações, conseguimos ver a relevância da dor ou desconforto abdominal.
Atualmente, tem-se remetido para a dor abdominal, diagnósticos de intolerância à lactose ou para a doença celíaca em que o/a paciente inicia, por iniciativa própria ou mal orientado por profissionais de saúde e por força da desinformação cada vez mais presente e fortemente divulgada, uma dieta com a eliminação de fontes de lactose e glúten, respetivamente. Esta associação a intolerâncias alimentares ou à doença celíaca deve ser devidamente ponderada na medida em que um diagnóstico espera-se sério. Podemos, ainda, refletir sobre a interferência da saúde mental para a própria saúde física de uma forma geral e, nomeadamente, para a sua relação com a saúde gastrointestinal quando sabemos que o stress psicossocial é um fator de risco, sendo inclusive, por exemplo, um traço importante no diagnóstico da síndrome do cólon irritável. No entanto, quaisquer diagnósticos que estejam a aprofundar a causa de sintomas – entre os quais a dor ou o desconforto intestinal que é o tema deste artigo do blog da Nutrémia, devem naturalmente ser, cientificamente, fundamentados e, sem se eximir em facilidades na atribuição de causas. Determinados diagnósticos só podem ser considerados depois de excluídos outros e, não se deve procurar o pensamento ou a conduta contrária. Exemplo disso é a síndrome do cólon irritável que é um diagnóstico de exclusão de outros diagnósticos que afetam a saúde intestinal.
A presença de dor abdominal verifica-se ainda em diagnósticos que afetem outros órgãos do sistema gastrointestinal como o fígado, a vesícula biliar e o pâncreas. Com certeza que se pode associar, ainda, a outros sistemas do organismo mas com este artigo, estou a focar-me mais na saúde gastrointestinal. Voltarei a este assunto ou a aspetos relacionados para ajudar a vermos a dor abdominal com maior atenção. Na Nutrémia falamos para além das calorias®.
Teresa Campos, Nutricionista e Diretora clínica da Nutrémia, Clínica de Nutrição e do Comportamento

