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Entre o planeamento e o prato: o que a prática em ERPI nos tem mostrado sobre decisão nutricional

Em contexto de Estruturas Residenciais para Pessoas Idosas (ERPI), falar de alimentação não pode limitar-se à existência de uma ementa planeada.

A ementa é importante. Organiza refeições, promove variedade e procura responder às necessidades nutricionais da população residente. No entanto, a prática mostra que aquilo que está previsto nem sempre corresponde ao que é efetivamente ingerido.

E é precisamente nessa diferença que começam muitas das decisões nutricionais mais relevantes.

Ao longo da experiência desenvolvida em contexto de ERPI, uma das observações mais consistentes tem sido esta: uma refeição aparentemente adequada pode não corresponder a uma ingestão suficiente para responder às necessidades da pessoa.

Na prática, observam-se frequentemente refeições parcialmente consumidas, componentes proteicas deixadas no prato, ingestão reduzida de líquidos, refeições demasiado demoradas ou dificuldades que passam despercebidas quando a atenção se centra apenas naquilo que foi servido.

Por isso, em nutrição geriátrica, a avaliação alimentar não pode limitar-se à pergunta: “A refeição foi disponibilizada?”

É necessário perceber quanto foi efetivamente ingerido, o que foi recusado, se houve necessidade de ajuda durante a refeição, se a textura alimentar está ajustada, se existem sinais de fadiga, dificuldade de mastigação ou suspeita de disfagia.

Foi neste enquadramento que, no projeto desenvolvido em ERPI, a observação da ingestão alimentar real, a análise das ementas, a avaliação do estado nutricional e a reflexão conjunta sobre situações concretas passaram a assumir um papel central na intervenção.

Porque, muitas vezes, pequenas alterações do quotidiano podem ter significado clínico importante. Uma refeição repetidamente incompleta pode traduzir risco de desnutrição. A lentificação da refeição pode sugerir fadiga ou dificuldade de deglutição. Uma redução progressiva da ingestão pode antecipar perda de força, maior dependência e deterioração funcional.

É neste ponto que a sarcopenia assume particular relevância. Na prática, observam-se pessoas com perda progressiva de força e funcionalidade cuja alimentação, apesar de aparentemente organizada, pode já não responder adequadamente às necessidades nutricionais atuais.

Uma refeição visualmente “completa” não significa, necessariamente, uma ingestão energética e proteica suficiente para preservar massa muscular, autonomia e funcionalidade. Por isso, olhar para o prato nem sempre chega. Torna-se necessário relacionar a ingestão alimentar real com a evolução ponderal, a força muscular, a funcionalidade e o contexto clínico da pessoa.

Outro desafio frequente em contexto institucional prende-se com as dietas de textura modificada e o uso de espessantes. Estas adaptações podem ser fundamentais para promover maior segurança alimentar, sobretudo perante dificuldades de mastigação ou disfagia. Contudo, a experiência no terreno mostra que uma textura adaptada nem sempre garante uma ingestão adequada. Há pessoas que aceitam pior refeições cremosas, ingerem menores quantidades, demoram mais tempo a comer ou demonstram menor prazer alimentar. O mesmo pode acontecer com líquidos espessados, frequentemente associados a baixa adesão e ingestão hídrica reduzida. Por isso, a adaptação da consistência alimentar beneficia de avaliação estruturada, objetivos definidos e reavaliação contínua.

Perante tosse durante a refeição, engasgamento, lentificação alimentar ou redução da ingestão, a questão não deve ser apenas: “Que textura utilizar?”. Mas também: “Esta adaptação está realmente a melhorar a segurança sem comprometer ainda mais a ingestão e a qualidade de vida?”.

A experiência em ERPI tem mostrado que pequenas diferenças entre aquilo que é planeado e aquilo que é efetivamente ingerido podem ter impacto clínico importante. Muitos problemas nutricionais começam de forma silenciosa: no prato que regressa incompleto, no copo de água que permanece cheio, na refeição que passa a demorar demasiado tempo ou na perda de força que se tende a interpretar como “própria da idade”.

Talvez por isso, observar a refeição continue a ser uma das partes menos visíveis – mas mais relevantes – da intervenção nutricional. Porque, em nutrição geriátrica, nem sempre é suficiente saber o que foi servido. É necessário compreender aquilo que a pessoa conseguiu, aceitou e efetivamente ingeriu.

Autoria: Tatiana Inácio, Estagiária de Nutrição

Supervisão técnica: Teresa Campos
Nutricionista e Diretora da Nutrémia, Clínica de Nutrição e do Comportamento & Loja biológica

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Volkert D, Beck AM, Cederholm T, Cruz-Jentoft AJ, Hooper L, Kiesswetter E, et al. ESPEN practical guideline: Clinical nutrition and hydration in geriatrics. Clin Nutr. 2022;41(4):958-89.

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