Escutar também faz parte da avaliação nutricional
Uma consulta de Nutrição é frequentemente associada à avaliação do peso, ao cálculo das necessidades nutricionais ou à elaboração de um plano alimentar. Embora estes elementos façam parte da prática clínica, representam apenas uma parte do processo de decisão.
A avaliação nutricional procura compreender muito mais do que aquilo que a pessoa come. Procura interpretar os fatores que influenciam os seus comportamentos, identificar obstáculos à mudança e reconhecer os recursos que podem facilitar uma intervenção ajustada à sua realidade. É neste contexto que o diálogo adquire um verdadeiro valor clínico.
A informação alimentar nem sempre explica a realidade
Dois indivíduos podem apresentar um padrão alimentar semelhante e necessitar de abordagens completamente diferentes. A ingestão irregular de refeições pode resultar de horários laborais exigentes, dificuldades económicas, baixa literacia em saúde, alterações emocionais, limitações funcionais ou simples falta de organização do quotidiano. O comportamento observado pode ser idêntico, mas as razões que lhe dão origem são distintas. Sem compreender esse contexto, existe o risco de interpretar corretamente os sintomas, mas de responder de forma inadequada às suas causas.
O diálogo como instrumento de avaliação
Durante uma consulta, ouvir não significa apenas recolher informação. O diálogo permite conhecer a forma como a pessoa vive a alimentação, interpreta as recomendações, descreve as suas dificuldades e identifica as mudanças que considera possíveis. Ao mesmo tempo, surgem elementos que dificilmente seriam captados através de um questionário ou de um diário alimentar: a confiança nas próprias capacidades, a forma como são encarados os sucessos e os insucessos, as experiências anteriores, as expectativas relativamente ao tratamento ou as prioridades que condicionam as decisões do dia a dia. Cada um destes aspetos contribui para construir uma visão mais completa da pessoa.
Da observação à decisão clínica
O raciocínio clínico desenvolve-se a partir da integração de diferentes fontes de informação. Os dados antropométricos, clínicos, alimentares e laboratoriais fornecem indicadores objetivos. O diálogo permite interpretá-los à luz da realidade individual. Uma pessoa pode conhecer as recomendações nutricionais e, ainda assim, sentir dificuldade em colocá-las em prática. Outra pode apresentar uma alimentação aparentemente adequada, mas revelar limitações importantes na preparação das refeições ou na gestão das rotinas familiares. A decisão clínica resulta precisamente da integração destes diferentes elementos e não da análise isolada de qualquer um deles.
A intervenção continua para além da primeira consulta
A elaboração de um plano alimentar não representa o final da avaliação. Ao longo do acompanhamento, a monitorização permite compreender de que forma a pessoa responde às estratégias propostas, quais as dificuldades que persistem, que adaptações se revelam necessárias e que competências vão sendo desenvolvidas. Uma intervenção eficaz não procura apenas produzir resultados imediatos. Procura construir mudanças que possam ser mantidas ao longo do tempo.
O que nos diz a evidência científica
A investigação tem demonstrado que a qualidade da comunicação entre profissional de saúde e utente influencia a confiança, a compreensão das recomendações, a adesão ao tratamento, a autoeficácia e a capacidade de participar ativamente nas decisões relacionadas com a própria saúde. Assim, comunicar não constitui apenas uma competência relacional. Constitui um instrumento que melhora a aplicação do conhecimento científico à realidade de cada pessoa.
As limitações também fazem parte da avaliação
Naturalmente, o diálogo apresenta limitações. A memória pode ser imprecisa, algumas respostas podem ser influenciadas pelo contexto da consulta e determinados comportamentos nem sempre são descritos com exatidão. Por esse motivo, nenhuma decisão deve basear-se exclusivamente na informação verbal. A interpretação clínica exige sempre a integração de diferentes métodos de avaliação e a revisão contínua das hipóteses formuladas. É precisamente essa integração que permite uma intervenção mais rigorosa e individualizada. Uma consulta de Nutrição começa, naturalmente, pela alimentação. No entanto, dificilmente poderá limitar-se a ela. Compreender aquilo que uma pessoa come implica compreender a pessoa que está à nossa frente. E é nessa escuta atenta que, muitas vezes, começa a verdadeira intervenção.
Teresa Campos
Nutricionista e Diretora da Nutrémia, Clínica de Nutrição e do Comportamento & Loja biológica
Falamos para além das calorias®.
Artigo científico recomendado
Street RL Jr, Makoul G, Arora NK, Epstein RM. How does communication heal? Pathways linking clinician-patient communication to health outcomes. Patient Educ Couns. 2009;74(3):295-301.

